03/08/2006

- OBSESSÃO -

Para ler ouvindo Crazy - Gnarls Barkley

A paixão é o verbo amar no gerúndio. Enquanto o amor por si só, etimologicamente é construído apenas a partir do belo e do digno, a paixão diferentemente do amor poderá ter sua tendência no bem e no mal, enquanto o amor não julga e se compadece resignado, a paixão é o impulso criativo da perpetuação da vida. Amar está desligado do tempo, não tem urgência e não produz mais do que uma ou duas histórias bonitas. A paixão dilacera, corrompe, não respeita os dias, pois vive e se alimenta apenas do segundo. A paixão está no movimento e na continuidade cíclica que persegue o objeto desejado.

Toda paixão é desmedida, a paixão é obsessão implícita, que marca a carne, a paixão rejeita a razão. Não dorme, não come e não escova os dentes. Se renova como a cobra troca de pele. Todo o homem que um dia viveu uma paixão e mesmo ela tenha sido abrandada pelo amor do seio de outra mulher, não irá esquecer jamais. A paixão não tem partes destacáveis, é completo e na carne permanece. A paixão é o que movimenta Ares para a guerra, que conduziu o Cristo para seu calvário. É o que cria o novo. Enfim, o amor está para a água assim como a paixão para a gasolina.

Nada que realmente vale a pena é construído através da conformidade e submissão, seria como estar desidratando e beber água com um conta gotas. Não porque não poderia faze-lo, mas a urgência não permitiria.

27/07/2006

NO MEIO DO CAMINHO Ver. 22.07

No meio do caminho tinha um poste tinha um poste no meio do caminho tinha um poste no meio do caminho tinha um poste. Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha um poste. Tinha um poste no meio do caminho no meio do caminho tinha um poste.

Para os amigos, que embora minha desgraça possa parecer ter graça, mas que de graça nada vem afinal, não é? Para bom entendedor (sabedor) meia palavra basta.

25/07/2006

PRELÚDIO:

Para ler ouvindo “Singing In My Sleep”, Semisonic


Eu pretendia manter meu último site, mas não é possível. Primeiro porque o e-mail que eu utilizava para tal foi furtado, na primeira vez eu solicitei a Microsoft que prontamente me devolveu a conta, depois, quando roubada novamente decidi que a vontade do cidadão em roubar uma mesma senha duas vezes foi memorável e por isso acho que era realmente merecedor da conta. Isso já me ocorreu, a antena parabólica da minha casa foi roubada, sim aquelas antenas gigantescas, neste caso também achei válido, pois alguém que se presa a roubar algo assim, torna-se merecedor do objeto adquirido ilicitamente. Deixei. Então aqui, para desespero de uns e risadas de outros me debruço novamente às crônicas. Como em tudo na vida, somente a prática e dedicação tornarão meu trabalho melhor, por isso peguem leve por um tempo.

O SILÊNCIO É MORTAL

Para ler ouvindo “Porcelain”, Moby

Você já se perguntou porque é que dizem que o silêncio é mortal? Numa divagação parva e completamente despretensiosa acho que descobri. O silêncio é mortal porque os cadáveres não reclamam. Você pode arranhar, beliscar, bater, traficar e assim mesmo eles continuarão a manter uma mudez letal, os mortos não revidam. Mortos não discutem política e economia, não sabem se o MST está ou não certo, eles não se importam se amanhã vai chover ou não. Mortos não consultam o horóscopo, não ligam e desligam o despertador o celular e a boca do fogão. Eles não precisam escovar os dentes, pentear os cabelos. Corpos em sua vida de finado vão no máximo uma vez ao médico, morto não pega gripe. Não dorme descoberto e, se dorme não está nem aí. Mortos não esquecem datas importantes, não tem patrão. Enfim, os mortos negam a existência a si e aos outros.

Passando agora da rigidez cadavérica e sutil deste texto, vamos pular para outra esquina. Negando o princípio da lógica, me desculpem os filósofos, mas este texto já começa errado pelo título, eu sei. Mas vou dar uma de morto e não vou me importar. Agora, me diga, são os mortos que são indiferentes a nós, ou nós que somos indiferentes a eles? Vejamos, você alguma vez não revidou? Não revidou porque você estava morto ou porque o objeto da réplica estava? Você alguma vez, por total descaso olhou a bina do celular e não atendeu? Não atendeu porque você estava morto ou porque você não atende ligações de cadáveres? Poderíamos fazer comparações durante todo o texto, mas creio que o caro leitor já pegou a veia do discurso.

Agora, me diga, de qual lado você quer estar? Indiferença é primeira ordem para os mortos. Mortos são completamente indiferentes, eles não querem saber se você está bem, se você está sofrendo, mortos tem os sentimentos anestesiados. Você já matou alguém? Confesse. Todo mundo já matou alguém. E, como em alguns crimes, as pessoas são passíveis de arrependimento, entretanto, sabemos que para a morte não há remédio, se alguém souber me avise que eu mudo o texto. Há alguns que matam aos poucos, outros que matam de forma fulminante, e todo aspirante a morto avisa ao menos uma vez que está a ponto de morrer. Suplica ignorada e está lá mais um corpo estendido no chão. Triste? Nem sempre. E se você acha que eu acho graça disso tudo, pense melhor, afinal morto também não ri.

DIVINA PROVIDÊNCIA

Para ler ouvindo “Disappear”, Hoobastank
Assim como as sequóias envergam seus galhos centenas de metros do chão, não por sua vontade, mas sim por sua natureza. Os homens tendem a estender suas próprias dores a proporções estratosféricas, não porque desejem isso, mas porque não estão capacitados a observar as perspectivas dissonantes a sua vontade.

A maior comprovação de tal pensamento é a fé. Estamos acostumados demais a recorrer a “divina providência” tais como os cristãos ortodoxos faziam e ainda, mesmo que em menor grau o fazem. A crença enganadora de que por encantamento tudo desaparece polui a alma e a razão dos homens. Não quero com isto desfazer o sentido original da fé, que é crer, o que quero dizer, é que embora tenhamos todas as razões (originárias do id) que na sua maioria são nada mais do que uma falácia que o próprio destino imprime aos homens. Acaba por tornar-se maior do que o objeto pelo qual incitou o sentimento de fé.

Outra coisa, é os seres tenderem a ser benevolentes consigo para logo mais julgar os outros com uma potência titânica. Ofender, punir. Talvez, logo ao lado das necessidades fisiológicas a vingança seja uma das máximas instintivas humanas, compreende uma certa atividade de auto preservação. Entretanto enquanto estes mesmo seres forem incapacitados de perceber, mensurar e medir, com calma e razão. Continuaremos no mesmo impasse da cobra que come sua própria cauda até que não exista mais nada.

A força da ira destrói o que o tempo constrói. As pessoas buscam a redenção nos outros enquanto estão incapacitadas de encontra-la em si.

O TEMPO SE BASTA

Para ler ouvindo “Older Chests”, Damien Rice


Em um certo momento você vai perceber que tempo não é para perder, tempo não tem conserto, não tem preço. O tempo tem tudo e não tem nada. Você pode passar o tempo, ou deixar que ele passe por você. Negar a existência do tempo é negligenciar a vida, negligenciar a vida é perder tempo. Pense bem, você poderá não estar mais aqui amanhã. Enquanto muitos reclamam da vida, imersos em si, acreditando que as coisas amanhã poderão ser melhores do que foram ontem ou hoje, acreditando em fantasias, enganando a si mesmos vivendo de passado ou futuro mas, acorrentados aqui e agora. Onde você quer estar?

As coisas mudam quando você percebe que o relógio da cozinha anda para frente e o relógio da vida está atado a um mecanismo invisível em contagem regressiva, acorde, você está morrendo. Não acorde tarde para a vida, no despertar do relógio do tempo não tenha preguiça, não vire para o lado. Vá ver o sol nascer.

Viva para o essencial, se você é essencial para algumas pessoas, viva para elas, se você não for essencial você saberá, afinal não serão muitas as pessoas para as quais você deverá dedicar o seu tempo, a menos é claro que você seja como a Madre Tereza, o que convenhamos, não é o caso, pois se por acaso o fosse você não teria tempo para perder lendo isto.

Se por acaso lhe fosse concedida a barganha de ter dez minutos o que você gostaria de estar fazendo, com quem você gostaria de estar? Do contrário do que você imagina, você não terá muito tempo para pensar nisso, você tem apenas dez minutos.

Não teime com o tempo, ele sempre irá vencer, não seja inimigo do tempo, nunca ninguém o venceu e nunca ninguém vencerá, pois o tempo é senhor de todos os domínios é o grande Leviatã.

O tempo é indiferente, se trata-lo como inimigo ele irá devorar você, se ignora-lo ele sutilmente passará, nem debochar de você ele irá, pois o tempo não se perde nele mesmo. Como eu dizia, ele é supremo, dentro de si contém tudo, de Pandora a Morfeu, ele está em tudo, é o compasso de cada batida a menos que o seu coração dá. Está na tampa da pasta de dentes que caí no ralo da pia.

Viva a vida toda de acordo com o que você faria naqueles benditos dez minutos, o resto é só a cobertura do bolo.

EXMUNDO

Para ler ouvindo “Cheers Darling”, Damien Rice

Portas fechadas, janelas cerradas

O mundo já não é mais meu.

Ouço os carros que deslizam na

pista ao longe,

Este mundo já não é mais meu.

Lábios semi-abertos, corando a pele

vejo os relógios de Dali a esmorecer

e escorrer

O corpo é a oficina da lascívia,

a língua, a mão. Ferramentas...

E o relógio de Dali escorre na parede

do tempo.

O tempo funde-se n'alma curva dos

devaneios do mundo aqui.

E este mundo nosso, deixa de ser meu.

A língua atrasa os ponteiros do

mundo de lá, para que os de cá,

serenados pelo deleite do calor

dos corpos, acelere a pulsação

adiantando para um meio dia sem fim,

onde a fome chega a hora toda e,

dura o tempo todo.

E este mundo nosso, agora, muito menos

nosso... Se extravia no tempo.

DESPERTADOR

Para ler ouvindo “Walk Away”, Ben HarperO budismo fala muito sobre “iluminação”, talvez seja a grande “meta“ do budismo se tornar uma pessoa iluminada, mas também dizem que não podemos, ou melhor, não devemos buscar a iluminação pois não é parte de um processo consciente, a iluminação acontece. Dizem que são inúmeros os processos que desencadeiam esta iluminação, acidentes de toda ordem, uma situação de trauma, um olhar diferente para o mundo.

Acho que iluminar é perceber-se dar aquela boa olhada e perceber as coisas como elas são, sem fantasiar ou criar cenários. É, simplesmente estudar o que o mundo dá para você. Dolorido? Claro que sim. O ser humano não está e talvez nunca esteja preparado para a perda. As vezes é preciso não existir. Pode uma pessoa existir e não existir? Claro que sim. Uma pessoa pode existir no mundo de alguém e não existir no mundo de outra pessoa. Uma pessoa pode ser importante no mundo de outra e não ser no de outra.

Este processo de existência e não existência é relativo e causa muita dor às pessoas. Quando você percebe num momento singelo que você não tem importância, que se você existir ou não, não fará diferença alguma no mundo de algumas pessoas. Mesmo que embora elas talvez façam ou tenham feito parte do seu mundo. É como tomar um soco no estômago, dolorido e angustiante.

O que é realmente importante? O que é essencial. Se você pode trocar ou substituir uma coisa por outra, significa então que não é tão importante. Se você é incapaz de fazer loucuras para manter isso, se você não está apto a cometer sacrifícios e fazer concessões isso significa que essa “coisa” não é essencial.

O fato é que não existe formula mágica. Para tudo existe solução. Para um machucado o tempo, para a dor um analgésico, para um coração partido um novo amor. Se você entender isso entenderá tudo. Não adianta fechar as portas, o mundo assim mesmo continuará a existir.

Eu tomei um soco no estômago.