Você já se perguntou porque é que dizem que o silêncio é mortal? Numa divagação parva e completamente despretensiosa acho que descobri. O silêncio é mortal porque os cadáveres não reclamam. Você pode arranhar, beliscar, bater, traficar e assim mesmo eles continuarão a manter uma mudez letal, os mortos não revidam. Mortos não discutem política e economia, não sabem se o MST está ou não certo, eles não se importam se amanhã vai chover ou não. Mortos não consultam o horóscopo, não ligam e desligam o despertador o celular e a boca do fogão. Eles não precisam escovar os dentes, pentear os cabelos. Corpos em sua vida de finado vão no máximo uma vez ao médico, morto não pega gripe. Não dorme descoberto e, se dorme não está nem aí. Mortos não esquecem datas importantes, não tem patrão. Enfim, os mortos negam a existência a si e aos outros.
Passando agora da rigidez cadavérica e sutil deste texto, vamos pular para outra esquina. Negando o princípio da lógica, me desculpem os filósofos, mas este texto já começa errado pelo título, eu sei. Mas vou dar uma de morto e não vou me importar. Agora, me diga, são os mortos que são indiferentes a nós, ou nós que somos indiferentes a eles? Vejamos, você alguma vez não revidou? Não revidou porque você estava morto ou porque o objeto da réplica estava? Você alguma vez, por total descaso olhou a bina do celular e não atendeu? Não atendeu porque você estava morto ou porque você não atende ligações de cadáveres? Poderíamos fazer comparações durante todo o texto, mas creio que o caro leitor já pegou a veia do discurso.


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